quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Quase carrapato

Os olhos dos prédios pouco me viam, eram vales de Minas, montanhas da minha varanda. Era um altar onde apenas chegava a vista dos miúdos que se mexiam lá em baixo e um silêncio de floresta.

Carros que grilavam no asfalto, vultos entre os galhos da Acácia que esticava cumprida em minha frente, concordando no vento.

Fim de tarde em cores, saara holliwoodiano, surdo.

Um gole de cachaça, um trago de charuto.

Fechei os olhos pra e me entreguei ao acaso mas meu polegar se cobriu de cócegas e, molestado, voltei.
Um ser minúsculo e apressado buscava seu destino no labirinto dos pêlos finos das costas da minha mão.

O pouco sol me desfazia mas mesmo assim me empenhei em saber a real natureza daquele vivo incômodo. Em um tapa de velho lince me livrei daquele que me parecia um potencial carrapato!

Um tapa e o microscópico desavisado desancou nos cacos de azulejo do piso antigo. Vi sua barriga brilhante e suas patas acesas pisando o ar, num moon walking sem lua.

Descansei a cachaça e aproximei a brasa de charuto do inimigo, sem pressa, com o cuidado pra que a fornalha em chamas apenas fizesse suas patas procurar mais rápido por uma fuga impossível. Aquilo ardia?

Um pouco mais perto, sem deixar a ansiedade estragar aquele prazer infato-doentil.

A montanha de cinzas quentes desabou sobre a criatura. Não, não era um carrapato, acho que não.

O aliegínea sumiu num breve instante.

Que destino. O que isso muda o meu destino?

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