Os olhos dos prédios pouco me viam, eram vales de Minas, montanhas da minha varanda. Era um altar onde apenas chegava a vista dos miúdos que se mexiam lá em baixo e um silêncio de floresta.
Carros que grilavam no asfalto, vultos entre os galhos da Acácia que esticava cumprida em minha frente, concordando no vento.
Fim de tarde em cores, saara holliwoodiano, surdo.
Um gole de cachaça, um trago de charuto.
Fechei os olhos pra e me entreguei ao acaso mas meu polegar se cobriu de cócegas e, molestado, voltei.
Um ser minúsculo e apressado buscava seu destino no labirinto dos pêlos finos das costas da minha mão.
O pouco sol me desfazia mas mesmo assim me empenhei em saber a real natureza daquele vivo incômodo. Em um tapa de velho lince me livrei daquele que me parecia um potencial carrapato!
Um tapa e o microscópico desavisado desancou nos cacos de azulejo do piso antigo. Vi sua barriga brilhante e suas patas acesas pisando o ar, num moon walking sem lua.
Descansei a cachaça e aproximei a brasa de charuto do inimigo, sem pressa, com o cuidado pra que a fornalha em chamas apenas fizesse suas patas procurar mais rápido por uma fuga impossível. Aquilo ardia?
Um pouco mais perto, sem deixar a ansiedade estragar aquele prazer infato-doentil.
A montanha de cinzas quentes desabou sobre a criatura. Não, não era um carrapato, acho que não.
O aliegínea sumiu num breve instante.
Que destino. O que isso muda o meu destino?
quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012
quinta-feira, 10 de novembro de 2011
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
coração partido
Ah, coração partido!
Insuportável certeza,
que carrega a beleza,
da estada da paixão.
Ah, coração partido!
São como os sinos da igreja
que choram o que desejam,
no covil da escuridão.
São pêlos que crispam à noite,
são as marcas do açoite,
são ossos que os pregos cravam,
são corações que se travam.
E mesmo sem fim o soluço,
e vasto de sal esse encosto,
tudo não passa de um sonho,
vivido num não medonho,
de um coração à pulsar.
o orgulho seca
O orgulho prende, seca, reduz.
O orgulho canta seu hino pelos morros e ri.
O orgulho fere, invade, cheira.
O orgulho come, se lambuza, sorri.
Mas quando a noite cai,
seus feitos perdem o lume,
o orgulho se curva ao betume,
e na íris se esvai.
Quantos olhos cabem em uma mão?
Voltados um para outro, presos na escuridão?
Vagam sem rumo certo,
marejados, descobertos,
sem centelha, sem razão.
E mesmo se finos pólens,
salpicados de emoção,
cobrissem seus cilíos pobres,
como um anjo em ascensão,
os olhos abobalhados,
não se veriam amados,
agouro de indigestão.
São como acordes de fado,
são lamentos sem razão.
São melodia sem rima,
açoite sem escravidão.
É vida que finda em si.
São crimes sem solução.
... só a vista no horizonte
é capaz de tal fusão.
Apenas olhos nos olhos
são presas de uma paixão.
minha mulher sou eu
Minha mulher era minha mãe
Minha mulher era o sol quente das tardes quase vazias
Minha mulher eram as listras negras e azuis da piscina do clube
Minha mulher era aquela de brinco de cristal no bailinho Anos 60
Minha mulher sou eu
Minha mulher usava chinelos
Minha mulher derramava vinho barato enquanto ria
Minha mulher subia nas árvores da faculdade
Minha mulher sumia e aparecia na fumaça
Minha mulher sou eu
Minha mulher era o raio de Iansã
MInha mulher era minha filha
Minha mulher era a loucura insana da paixão
Minha mulher era a verdade mentirosa
Minha mulher sou eu
Minha mulher eram todas as mulheres
Minha mulher era a minha mulher
Minha mulher partiu
Minha mulher morreu
Minha mulher sou eu
Assinar:
Postagens (Atom)
